Embrulho
Observou a casa. Nos seus olhos poderia imaginar-se algum cepticismo, admiração ou talvez até inveja. Tudo era novo, embora faltassem ainda algumas coisas. Era o que distinguia as casas novas daquelas mais usadas, pensou, a falta de algo. Tudo parece muito bonito ao primeiro olhar, contudo após uma inspecção mais pormenorizada faltam algumas coisas que inspiram a personalidade da casa. Não que sejam bem essenciais, são mais do que dispensáveis quando o objectivo é apenas dar a conhecer, celebrar e ostentar.
A mobília fascinava-a. Gostava particularmente de um design moderno arrojado mas ao mesmo tempo discreto, de forma a assegurar a manutenção da familiaridade. Nem tudo era do seu agrado, afinal os gostos de ambas raramente coincidiam. Observou calmamente a sala, tentando não demonstrar um interesse especial. Os cortinados ondulavam e deixavam passar raios transparentes de luz vindos da varanda escandalosamente grande, as poltronas encontravam-se arrumadas e o grande sofá faria com certeza todas as suas delícias. A completar todo o cenário uma televisão perfeita, aquela com que andava a sonhar há já algum tempo, sobre um móvel requintado.
Nessa mesma sala encontrava-se a casa de jantar. Todo o cenário deixou de fazer sentido. Na parede o móvel mais perfeito de todos com um singular jogo de espelhos que fazia transparecer toda a facilidade de uma vida descomposta. Mas as cadeiras! As cadeiras eram simplesmente hediondas, não havia outro termo. Lá no meio de todos aqueles objectos preciosos estavam as cadeiras menos apropriadas. Tentou comentar esse facto com o resto da comitiva, “As cadeiras são um pouco esquisitas”, “Nem por isso”, foi a resposta. Bem, talvez fosse só ela, pensou, talvez o preconceito se materializasse naqueles malogrados objectos. Porque não? Afinal sempre tinha ficado muito por dizer no que respeitava à valorização.
Depois de arrebatada ou atemorizada com tudo o que já vira reparou num objecto discretamente colocado a um canto. Uma mistura de formas metalizadas em forma de jarro gigante. Nada causou tanto impacto quanto o jarro gigante, nada se assemelhou mais ao seu feitio às suas desavenças mentais tão abrangentes. Ainda fascinada com aquele objecto teve de se dirigir para a visita aos vários quartos da casa. Não teve coragem para lhe tocar, não que alguém se importasse ou notasse. Ou talvez o fizessem mas atribuiriam tal facto à sua excentricidade incompreensível, ao seu pensamento não consonante. Não teve coragem para se lhe dirigir durante todas as horas passadas na casa, passava discretamente por lá para o contemplar a caminho da cozinha, ou fingia prestar atenção à televisão ainda mal sintonizada. Mas, nem que se esforçasse conseguia desviar os seus olhos curiosos daquela desorganização tão familiar.
Os quartos eram muito diferentes. Alguns não possuíam encanto suficiente para serem recordados por si, mas outros faziam transparecer muitas coisas, muitas sensações. O quarto principal tinha um roupeiro apropriado à sua importância, mas o que o distinguia era os tapetes. Delicados fios emaranhados e salientes que convidavam à carícia. Similares ao grande da sala não poderiam ser mais apropriados.
Havia algo que não lhe parecia bem. As camas não tinham cabeceiras incluídas. Estas estavam à parte! Alguns quartos ainda nem sequer as possuíam, mas a cabeceira do quarto principal era deveras interessante, um quadrado de cabedal.
Todas as trivialidades desvaneceram-se perante o quarto de hóspedes. Ali estava a sua vida, ou a vida que queria um dia ter. Embrulhada na intensa mobília preta.

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