27 Julho 2007

Hippie

Tinha sido encantamento ao primeiro olhar. Assim que os seus brilhantes olhos verdes pousaram sobre aquelas duas chávenas de chá, soube que as tinha de ter. Um encantamento deveras desproporcionado, pensou, repentino e tão arrebatador como todos os seus outros encantamentos.
Porquê aquela sensação de desespero face à ausência de um simples objecto? Tantas vezes se tinha perguntado. Porquê tanta urgência em o possuir para de seguida e após uma pequena consideração se desinteressar? Não que este tenha perdido o seu encanto, de modo algum, mas, passados uns longos instantes repara como poderia sobreviver de igual forma se não o possuísse. Não se arrepende, ou pelo menos pensa que não, ainda se lembra da sensação arrebatadora, daqueles momentos de felicidade puros e inconsistentes, quando se convence a si própria que tem de ser a sua dona, agora e sem demoras.
Tudo o que compra não provém deste bruto fascínio, contudo os seus objectos encantados definem-se sempre como especiais e podem cair em duas categorias por si elaboradas. Aqueles que mantém o seu puro brilho e aqueles que se misturam com o seu quotidiano, rebaixando-se a um nível mais terrestre e cuja perda despertará tanta ansiedade como um partir de um copo querido. Sabia que as chávenas acabariam nesta segunda categoria, talvez não o soubesse na altura enquanto elaborava uma lista perspicaz de todas os benefícios da sua compra, mas sabia-o. Pensando bem o conjunto chamava-se Hippie.
Hippie.
Hippie.
Seria previsível conferir-lhe logo a segunda categoria, pensou depois. Mas elas eram tão delicadas, decoradas com primaveris desenhos, traziam consigo duas pequenas e afectuosas colheres bege e encontravam-se bem guardadas numa irrepreensível caixa de cor rosa. Como era possível não ter ficado encantada? Vieram, então, as chávenas para casa.
Perguntava-se se poderia encontrar uma pessoa que exercesse nela um magnetismo tão exacerbado como os seus objectos cintilantes. Perguntava-se se queria descobrir tal pessoa. Afinal, a sua vontade possessiva podia realmente ser um entrave a todo e qualquer conhecimento que quisesse travar. Contudo, não estaria a confundir objectos com outros que aparentavam deliberar por iniciativa própria? Nunca sentira tanto desejo para com alguém, de facto suspeitava que não se tratavam de desejos semelhantes. Poderia possuir um objecto eternamente mas não os outros. Ou talvez pudesse mas, pensou, deveria realmente aborrecer-se de tamanha possessão.
27 com cheiro de 26. A 2.

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