14 Julho 2007

Vazio

Amanheceu mais uma vez.
Tudo agora parece vazio e sem qualquer significado. Pelo menos sem o significado que tanto desejei.
Costumava pensar que qualquer dia que estivesse viva seria um dia bom, uma perspectiva realmente pouco original e muito pouco precisa, mas, na minha ignorância forçada, gostava de pensar assim, ou gostava de pensar que pensava assim.
Agora percebo que, como uma vez me disseram, é preciso muito mais. É preciso sentir e não apenas procurar existir. Mas nada disto me consola ou me faz ver todos os acontecimentos de outra forma. Ou talvez faça, mas de uma forma esfumada e vazia.

Deparei-me com realidades que nunca percebi que estavam dentro de mim. Percebi que não sei o que sou, que não tenho rumo.
Não me sinto cansada, não me sinto triste, não me sinto. Procuro em vão enaltecer tudo o que faça parte de mim na esperança de que algo se revele. Como é óbvio, os meus motivos não são todos altruístas para mim, também procuro ser notada, estupidamente notada.
Não percebo o que escrevo, paro incessantemente na dúvida. Toda a pequena indecisão é custosa, rouba-me o fôlego, suga de mim toda a iniciativa que ainda poderia ter.

A verdade é que não sei o que se passou. Não consigo perceber qual o momento em que me perdi. Nas horas vagas e vazias procuro algo que produza um significado, que me faça chegar ao fim do dia com uma justificação. Não sei se justifico a minha existência.
Parece-me tudo tão pouco consistente.

Anoiteceu mais uma vez.
Durmo para esquecer que penso. Durmo para esquecer o que penso. Revejo tudo o que fiz e tudo o que farei, procuro dar consistência a algo cada vez menos consistente, a mim. Não percebo porque me sinto vazia, porque preciso de cada momento pensado para não deixar de existir.
Tudo se afigura creme. Creme é a pior das cores. Quando tudo parece creme a existência é demasiado perfeita ou então já não possui o entusiasmo para contemplar qualquer outra cor. Quando a vida viaja com qualquer cor, ou se viaja apenas com uma cor, apercebemo-nos. Mas quando existe o creme não. O creme possui muitas tonalidades, tonalidades atraentes que se misturam tão bem com todas as cores já possuídas. Tudo fica bem com creme. E sem que alguém se aperceba o creme espalha-se e espelha uma sedutora segurança.
No início o creme é a vitória e o orgulho conseguido. Depois de algum tempo instala uma melancólica monotonia que até sabe bem. Com o tempo o creme deixa de ficar bem, confunde-se e veste-se de outras cores, que deixam transparecer a exaltação da vida. Quando esta acaba e volta a segurança e a paz surge de novo o creme. Tão bonito e resplandecente como sempre. Esta é a roda do creme.
Mas o que acontece quando esse creme não desaparece, quando parece sufocar tudo o que se subleve?
Talvez apenas o azul do mar o expulse. Talvez nas profundezas do abismo marítimo exista algum peixe curioso que se alimente de todo o creme do mundo.
É para as profundezas que me dirijo, para o fim do abismo, sempre à procura do especial peixe.

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